Caminhada

Sapatos na nuca
Saia amarrada
Embaraço de fios
passos marcados

Areia nos olhos
Pouca visão
Areia dos dedos
Roçando no chão

Cabelos ao vento
Cabeça no ar
Olhar esquecido
De tanto calar

Longa caminhada
Na areia molhada
Gotas da jornada
Na saia enrugada.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Coração de mãe

Eles vão chegar a qualquer momento. A lágrima de desespero rolou sobre a pele suave, esperando adoçar a saliva já amarga pelo medo. Era a primeira vez que as crianças viajavam sozinhas, dois dias, sem conhecer ninguém.

Pensava neles a cada minuto, os segundos viravam horas, os noticiários explodiam acidentes na estrada. O pânico tomou conta da situação.

Dois dias, quarenta e oito horas aguardando a pior notícia. Será que eles vão descer na rodoviária errada? Será que comeram, tomaram banho, choraram a minha falta? Será que uma criança de 11 anos sabe como cuidar de outras duas de 9 e 7?

Mas era preciso confiar. Foi pela mãe que os filhos resolveram abandonar o conforto, a escola e os amigos. Foi por esperança que a mãe abandonou a família, os filhos e sua terra natal. Tudo valeria a pena? Talvez. Era preciso acreditar. E acreditar também que eles iam chegar, certinho como a mamãe explicou.

O ônibus já atrasado há duas horas mostra o pára-choque na entrada da Rodoviária. O vidro espelhado não deixa ver o que tem dentro. Pára na portaria, passam-se dois, três, cinco minutos intermináveis até que o fiscal libere os passageiros.

A mulher de vermelho desce com as malas e o travesseiro. A ansiedade aumenta, será que eles estão nesse aí? As lágrimas atrapalham, e de lenço, só a palma da mão.

Um homem com o filho, a esposa gorda de vestido de bolas rosas vem logo atrás. Um senhor idoso desce a escada bem devagar e volta, esqueceu sua frasqueira.

A mãe, já em pânico, rodeia o ônibus em busca de uma luz para seu desespero. Seus filhos, onde estão?

Até que as lágrimas cessam e quase num salto, ela leva um susto. Lá vem os três, descendo as escadas e com o coração da mãe nas mãos.

Dedico esse conto à Margarete, minha querida mãe e ídola.

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