Caminhada

Sapatos na nuca
Saia amarrada
Embaraço de fios
passos marcados

Areia nos olhos
Pouca visão
Areia dos dedos
Roçando no chão

Cabelos ao vento
Cabeça no ar
Olhar esquecido
De tanto calar

Longa caminhada
Na areia molhada
Gotas da jornada
Na saia enrugada.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Tributo aos meus amigos

Os amigos são amores, mas também o são horrores.
Dão barriga, cerveja e rugas, dão risadas, lágrimas e tristezas.

Os amigos nos dão momentos inesquecíveis e nos levam pedaços inteiros.
São como facas que cortam em partes o coração, a cada partida, a cada surpresa, a cada caixão.

Amigos são como nuvens, suaves, aconchegantes, confortáveis e confiantes.

Amigos são como gelo, reais, terríveis, mas qualquer calor os derrete.

Amigos tem sempre um, por perto, por longe, sem eles não há vida, não tem porque, nem onde, nem de onde.

Amigos são como troncos que nos ajudam a respirar no rio da vida. Jogados à correnteza, nos dão o suspiro necessário para continuar.

Amigos são como fogo, nos acalentam na madrugada mais fria, cozinham os nossos problemas e nos dão de comer a esperança.

Amigos, que bom é ter-los. Tão lindos a vida inteira. Tão bom fechar os olhos e ver os cílios, as unhas, os dentes a sorrir, a abraçar, a ouvir e a cantar.

Amigos são como amigos, não tem explicação. Te expelem, te esperam, mas nunca te deixam, estão sempre no coração.

Aos meus amigos, que amigos são, como todos os amigos dos amigos dos meus amigos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A vida de um cão



De um lado e de um outro seu rabo situa
o vento balança e mostra a rua.

A lingua molhada balança e voa,
mostrando que há vida na vida à toa.

Prum cão, um parque é tudo de bom
tem sol, tem grama, tem terra sem som
de carro, de grito, busina ou moto
só pássaro, grilo, corrida e mato.

A vida de um cão não tem preocupação
acorda, dorme, come e late de montão.

domingo, 4 de outubro de 2009

Beleza tão bela

Beleza tão bela
Que existe na flor
No gosto, no cheiro,
Olhar, beija-flor

No som das estrelas
Na água do mar
Na areia deserta
Na folha, no ar

Beleza tão bela
Que existe na cor
Que envolve, enlouquece
E causa torpor

Se alguém te falar
Do escuro do amor
Beleza tão bela
Também traz a dor.

Ontem e hoje

Ontem pedi pra você me entreter
Hoje peço pra me esquecer

Ontem pedi pro mundo me ter
Hoje peço pra me corromper

Ontem e hoje são diferentes
Passado e futuro
Presente de Deus
Passado e futuro
Presente de nós

Ontem pensei
Hoje acordei

Ontem e hoje
Contradição
Ontem e hoje
Sem direção

Ontem
Lutei
Hoje
Fartei

Pra que ontem
Se existe hoje?

Sem

Às vezes se abate
A tristeza
Às vezes a tristeza
se abate

A chuva não molha
O sol não queima
A lua não clareia

Andando na rua
Chinelos quebrados
Rostos retorcidos
Olhos nas lágrimas

Ver sem ver
Sentir sem sentir
Pensar sem ser

Cem problemas
Sem problemas

Dia

Abre os olhos
Pra acordar
Sol bem alto
Pra esquentar

Abre os braços
Mais espaço
Ar no encalço
Inspirar

A coluna
Esticar
As abelhas
Despertar

Já é dia
Sussurrar
Todo dia
Pra lidar.

Crianças

Inocentes
Perspicazes
Psicológicas e influentes

Puras de coração
Repletas de emoção
Esbanjam adrenalina
São como furacão

Hoje querem o mundo
Amanhã todo o espaço
Mas só ocupam 1 metro
E menos de meio agachado

Quisera eu entendê-las
Tão vivas que até dói
Principalmente os ouvidos

Só entende quem é criança
E que sonha em deixar de ser
Pra virar anti-criança
E deixar de viver.

Amanhã de ontem

Quisera eu soletrar
As pontas da tinta que escorre
Da vida que há de vir

Das músicas que quero ouvir
Das letras que não escrevi
Dos livros que ainda não li
E da fonte que não bebi.

Bis

Os olhos
Que trocam meus olhos
São doces de Ter

A troca de olhos
Suor, calcanhares
Que beiram
Tropeiam
Cheios de anseios

Olhos marcados
Cheios
De imagens
Desejos

Olhos que trocam
Sonhos
Lampejos
A vida em pêlo

Olhos
Teus olhos
Que deixam rastreio
De fogo e luz
De sombra e bis.

Grande

Escrevo pra ti
Pra não explodir
Escrevo porque
Preciso dizer
Do meu coração
Preciso ferir
Pro sangue sair

Escrevo agora
Tão grande a hora
Em cima de mim
Tão grande o momento
A hora do alento
Pequeno sorriso
Na hora do apito

Escrevo pra ti
Só pra te dizer
Que és grande
Tão grande
Que nem sei dizer
Só sei conduzir
Pra algum lugar
Se é que sei.

Sou

Vai dizer que sou eu

O sussurro do vento
A brisa da noite
A gota da chuva

Vai dizer que sou

A alma ardente
O coração pulsante
A mão gelada
A boca congelada

Vai dizer que
Não mais sou eu
Que pede à noite

Não mais sou
Só desalento

Não mais
Solidão

Não sem você.

Momento

Momento da vida
que diz amo
Momento este
Tão incerto
Momento correto
Momento incorreto
Momento do eu
Ou de mim
Ou de tu
Ou de nós

Momento incerto
De dizer porquê
Momento esperto
De dizer de quê
é feito o porquê

Momento
De amos e danos
De dores
De amores

Momento de saber
Momento esperado
Momento desesperado
Momento
de incerto, correto e esperto.

De 6 em 6

Tenho certeza
tenho razões
tem um buraco
já não tenho rédeas
mas não vou deixar
O Pai há de me dar

Ó vida
Quem te diz bela
não sabe
Se bela
Imbela também

Quem diz que diz
Dos pássaros
Tem toda a razão
De 6 em 6
caem
de 6 em 6
alçam vôo
Vai entender a lógica
De 6 em 6
Muda-se tudo

Já não tenho crença
Nem pai
Já não tenho sempre
Nem tive
Só tenho por quê
Quando
E como.

Dor

Às vezes o coração parece que vai desaparecer
Tão apertado que fica
E parece que quando se chora alivia
Mas depois começa a doer de novo
É uma dor lacinante, daquela que não existe remédio
Não existe cura
Só o tempo
O tempo tampa a ferida
Queima aos poucos e transforma em cicatriz

Agora é esperar
Até cicatrizar
E sonhar
Com o dia que tudo isso vai acabar
Até sumir
Pro meu coração parar de sangrar.

Saudade

Saudade do Mestre Ambrósio
Do Tom Zé
Do Rappa
Do Açaí da rua difícil de achar
Da rua pra atravessar
Do banco pra ir
Do Chá e do Caffé
Saudade do filme não assistido
Do lençol mal dormido
Da cama desfeita
Da toalha molhada
Do cheiro, da boca suada
Saudade da Elis
Do Chico
Do banheiro apertado
De toda alegria e tristeza
De todo sistema amuado
Saudade do aperto
Da força do peito
Da voz, da janela
Da porta entreaberta
Do banheiro fechado
Saudade do almoço
E da pizza de Sexta
que dói no peito.
E molha a vista.

Pinturas na pele

Energia tua
Me empurra
Entorna a pele
Faz pinturas

Energia tua
Preenche os espaços
De um mundo descalço
De um tempo varrido

Energia tua
Só tua
Que suga
E empurra
E espanta o ar
Dos pulmões

Energia tua
Que faz pensar
Na hora
Em agora
No ponto que flui.

O normal

Sentidos
Leve sede de anormal
correr
gritar
chorar
Depravar

Sede de amigos
Que outrora anormais
Se escondem em casacos
E óculos normais

Coisas do sistema
Da babaquice
Que impõe o normal
Do que é anormal

Ser feliz é o lema
Boca aberta todo dia
Fragmentos de um bom dia
Extinto o irracional
Tudo normal
Dentro do anormal

Gangorra do mar

Vai e vem
Vem e vai
Solta espuma
Grita
Chora
Ri
Gargalha
Lacrimeja quando vem
Esvazia quando vai

Sobram conchas
Galhos
Lembranças
Mas logo
De novo vem
Cobre tudo
Transborda
Arrepia
E logo se vai

Torna dia
Torna noite
Vai e vem
Vem e vai

Ela ou Eu?

Ela olhou para e viu com os dois olhos aquele que já não via há muito. Aquela sombra que a luz da lamparina vermelha desenhava no ladrilho azul, aquele sorriso que fazia seu corpo gemer. E dentro de sua volúpia, relembrou o muito esquecido nos sonhos, dentro da mais profunda vontade.

Ela olhou de novo e como uma miragem, a sombra se fez matéria e no seu coração, deslumbrou a alegria e toda felicidade que existe nos pequenos e brilhantes momentos de chegada, depois de uma longa espera.

Ela olhou por força e sem acreditar, que tudo o que não pudera alcançar em seus pensamentos era verdade, e era realidade, e reclamava dentro, a incomodar.
E nos passos que faltavam morava a eternidade.

Ela andou o eterno e por fim, chegou ao lugar que já tardou chegar e abraçou com garra o sonho e a amarra que prendia e arfava dentro do peito, a tremular. E enfim amou, como nunca antes amou, seu sonho, sua luz. Sua mais pura fantasia era a mais pura realidade.

Se um dia eu pudesse entender o que penso, talvez eu pudesse ser mais feliz.Talvez eu pudesse mostrar aos outros e a mim mesma a vastidão de amor que tenho a dar ao mundo, a todos os que me cercam. Mas não sei... algo dentro de mim é mais forte, me trava, me entorpece, me faz fugir da realidade.

De manhã eu sou luz, sorrio feliz, falo, cantarolo e deixo transparecer a felicidade imensa de ser abençoada por Deus. Mas à tarde já não sou eu, ou talvez essa seja eu. Entristeço, já sem lágrimas. Um aperto toma conta do meu peito, esvaindo minhas forças.

À noite, ando sem rumo, não penso. Parece que nada importa, nem as palavras, nem os sorrisos, nem a tristeza e nem a alegria. E tudo é igual, tudo não importa, tudo é passageiro.Por isso, acho e deixo de achar. Paro de sonhar, paro de falar, paro para pensar em nada, absolutamente nada.E há quem não entenda... Mas de noite não importa mesmo... A noite para mim foi feita para dormir ou para embriagar, mas como não bebo, fico com os lençóis e com o travesseiro.

Ela não dorme, não come, não bebe, mas sonha com a cama, a comida, a bebida e a filha.

Ela não fala, não chora, não expressa o que gosta, mas clama, mas berra e aperta o que gosta.

Ela não entende, não sabe, não quer entender que ela quer viver, quer sonhar, quer beber da fonte que está ali, logo ali, na frente da frente da frente da fronte.