Caminhada

Sapatos na nuca
Saia amarrada
Embaraço de fios
passos marcados

Areia nos olhos
Pouca visão
Areia dos dedos
Roçando no chão

Cabelos ao vento
Cabeça no ar
Olhar esquecido
De tanto calar

Longa caminhada
Na areia molhada
Gotas da jornada
Na saia enrugada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Keilla Rangel, 25 de fevereiro de 2010.

Hoje é seu aniversário, quinze anos já se passaram. Que legal. Você ainda é nova pra caramba e tenho certeza que todo aniversário seu, você tem o desejo que fosse o próximo, pois gostaria de ser mais velha, uns 18 talvez, né? Se negou, mentiu.

Mas não se esqueça que o tempo voa e que daqui alguns anos você sentirá vontade que o tempo regrida.

A vida é assim mesmo, a gente nunca tá contente. Eu não vou te dizer coisas tipo "curta a vida pois a vida é curta", porque eu acho que essa frase não tem muito sentido não. Curtir é uma coisa tão superficial: O que é curtir? Será que não é uma vida louca, sem pensar no amanhã? Não seria querer aproveitar o tempo sem pensar nos outros?

Mas tem uma frase que pelo menos para mim faz muito mais sentido: "Viva a vida". Viver é passar os dias com responsabilidade, alegria, amor, uma família, trabalhar, comer, ter filhos e tantas outras coisas.

Nunca pense: "Eu vou fazer isso, pois eu posso morrer amanhã." Nunca passe um dia como se fosse o último dia da sua vida, porque o mistério da vida está em nosso sentimento de nunca querer morrer.

Keilla Notário Rangel de Aquino, 12 de março de 1991.

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Agora são 9:13h, horário de Brasília, do dia 25 de fevereiro de 2010. Estou sentada em frente ao meu computador pensando nessa amiga tão querida que me acompanha há 22 anos.

Hoje nos vemos pouco, uma ou duas vezes por ano. Quando estamos de viagem, sempre damos um jeitinho de nos encontrar. Sentamos no quarto, falamos besteira, rimos, caminhamos juntas todos os dias enquanto estamos na mesma cidade. Caminhar é nossa hora de falar da vida, trocar figurinhas, conselhos, contar aquelas coisas que até hoje só conseguimos dividir entre nós duas. Isso é algo muito, mas muito especial.

Ás vezes nos damos bronca, ficamos nervosas, mas nunca em nossa convivência conseguimos nos cansar uma da outra. É impressionante, sempre me canso de ficar muito tempo com a maioria das pessoas, mas com a Keilla isso não existe. Posso passar dias ao seu lado sem sequer dizer uma palavra, não faz diferença falar ou não. Me sinto bem, como se a presença dela fosse uma parte de mim. Quando vou à sua casa, me sinto absolutamente em família, sua mãe, seu pai, seus irmãos, tudo faz parte de mim muito profundamente.

Talvez a maior razão dessa amizade ser assim esteja aí em cima, nessa cartinha escrita há 19 anos, mas com uma maturidade ainda inexistente nessa humanidade. A Keilla sempre foi de uma força e inteligência monumental, sempre me ensinou a ser responsável, a caminhar com os pés no chão, apesar de eu ser meio avoada. Mas acho que funcionou, pelo menos eu continuo tentando.

Bom, mas estou escrevendo tudo isso por uma razão, hoje a Keilla, madrinha da minha única filha, amiga inseparável, querida, amada, irmã faz aniversário. Ela nem sabe que vou colocar isso online, mas ela tem total consciência de que tudo o que escrevi aqui é a mais pura verdade. Eu sempre falo pra ela.

Keilla, desejo a você tudo: amor, paixão, alegria, felicidade, filhos, cachorros, amigos, família, responsabilidade, dinheiro, Deus e muita saúde.

Espero que possamos continuar nossa caminhada sempre e não tenho dúvidas que nossa estrada não acaba aqui. Durante toda nossa existência, estaremos juntas, nos fortalecendo e nos ajudando no nosso caminho evolutivo.



Amiga, irmã, te amo, ontem, hoje e sempre.

Feliz aniversário.

Joyce Baena.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Ilana, 9 de fevereiro de 2010



Há mais de 12 anos eu comemoro esse dia junto com meus natais, anos novos, aniversários e outros eventos especiais.

Nove de fevereiro é aniversário da minha melhor amiga, talvez a pessoa mais parecida comigo mesma que eu já encontrei por aí.

Quando me perguntam quem é a Ilana, falo simplesmente: "minha melhor amiga", mas isso não é toda a verdade. Na real, ela é mais que isso.

A Ilana é como se fosse a minha parte mais solta, as minhas loucuras, as minhas risadas abertas e gostosas, as minhas crises de nervoso, a minha ansiedade. De uns tempos pra cá, ela virou meu freio, meu termômetro, a minha vozinha na consciência.

Minha terapeuta diz que ela na verdade não existe, que a Ilana é uma parte de mim que dá as caras de vez em quando me ajudando a encontrar meu eixo. Mas está aqui a prova na foto. Ela existe, é de carne e osso e faz aniversário todo dia 9 de fevereiro.

Hoje é mais um dia desses e ela sabe que desejo a ela tudo o que ela mesmo deseja pra si, ou seja: um marido maravilhoso, filhos incríveis, muita saúde, um futuro brilhante e muito dinheiro no bolso.

Te amo amiga, você é tudo pra mim, como sempre te falo.

Muitas felicidades e muitos aniversários pra gente poder passar junta, separada, não importa. O que importa é existirmos na vida uma da outra, sempre.

Bjs, sua melhor amiga, Joyce Baena

45 lições após 90 anos de vida

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."
(Regina Brett, 90 anos, em The Plain Dealer, Cleveland - Ohio)


1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus. Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use lingerie chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.

23. Seja excêntrica agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..

31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34.Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa morrer jovem.

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Perseverança

O trabalho prossegue, pedindo equilíbrio e constância. Nem o entusiasmo passageiro, que nasce e se apaga, nem o desânimo anestesiante, que enfraquece e anula. Tanto quanto possível, busquemos atravessar as horas com a mesma disposição para o bem, a fim de que o bem, materializado nas tarefas de cada dia, nos alimente e fortaleça.

Continuamos ao lado dos companheiros que prosseguem no plano físico, com aquele mesmo espírito de serviço que nos assinalou nas primeiras horas de nossa Casa, porque, tanto aqui quanto aí, é no serviço ao próximo, buscando a promoção humana e espiritual, que damos continuidade às lições e experiências de que necessitamos para o nosso próprio desenvolvimento.

Guardem, portanto, a certeza de que não seguem sozinhos.

Nem poderia ser diferente, uma vez que os integrantes de uma mesma família estarão sempre inclinados a buscarem uns aos outros, alimentando a convivência amiga de que todos necessitam. Estamos juntos!

Vocês estão certos em elegerem a preservação da nossa unidade como o principal patrimônio a ser preservado, pois, é da unidade banhada no companheirismo sincero e no respeito mútuo, que encontramos a melhor defesa contra eventuais mazelas e a força necessária para atravessarmos as horas difíceis sem esmorecer nem desanimar.

Busquemos, portanto, o espírito conciliador em todas as situações que nos digam respeito, enquanto operários do bem, porque sem a tolerância que apara arestas conjugada à firmeza que assegura a meta, estaremos sempre sujeitos às instabilidades suscetíveis de estremecer nossa tarefa.

É importante que cada companheiro de ideal se conscientize do sentido coletivo de nossas atividades, trabalhando em suas tarefas e práticas, todavia sem perder a visão de conjunto.

Tudo o que fazemos tem repercussões cujos efeitos muitas vezes ignoramos, por estarmos com a visão demasiadamente aprisionada aos nossos interesses mais imediatos.

A Casa, porém, é uma só e, por essa razão, reclama uma abordagem mais abrangente de todos nós.

Nesse sentido, todo o bem que fizermos pela Casa repercutirá positivamente nas frentes de trabalho em que estamos mais particularmente ligados.

O bem aparentemente menor é irmão do socorro aparentemente maior, razão pela qual não devemos classificar nossas atividades pelo alcance hierárquico que possam evidenciar, e sim pelo espírito de devotamento e sacrifício que as emolduram.

Prossigamos, dessa forma, fortalecidos no clima de colaboração mútua, trabalhando e servindo, lutando e seguindo para a frente, porque o trabalho iniciado ontem precisa de trabalhadores vinculados ao mesmo ideal, que haverá de nos conduzir ao porto seguro do progresso espiritual.

Agradecidos, abraçamos a todos os companheiros, formulando votos de perseverança e bom ânimo, hoje, amanhã e sempre.

Gustavo Marcondes

(Mensagem psicográfica recebida pelo médium Clayton Levy, em
reunião de 31/1/2010, do C.E.”Allan Kardec”, de Campinas-SP)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Pitágoras for dummies

Esse texto foi escrito por um amigo do Instituto de Estudos Espírita que frequentamos. Achei interessante dividir, afinal, é uma história que deveria mexer com todos nós.

Pitágoras for dummies

Ora vejam só, quem diria. Pitágoras, aquele dos catetos e hipotenusas e triângulos retângulos talvez nunca tenha existido. Calma, o teorema continua valendo, ninguém te enganou. E outras coisas pitagóricas estão vivinhas por aí onde você menos espera. Por exemplo: a noção de que a natureza, o mundo, a música, tudo seria explicável por números.

Tá bom, isso parece óbvio agora, mas há 2500 anos a idéia era, convenhamos, bem original, tão original que acabou impactando Platão, Euclides, e mais umas dezenas de gênios adiante.

Um exemplo cotidiano: os livros na minha estante são uma indicação clara de que vou viver 300 anos. E como sigo comprando sem parar, logo-logo vou precisar de uns cinco séculos pra dar conta.Eu não vou viver 500 anos??? Jura? Xi, por que eu compro tanto livro, então?Digamos, então, que minha hipótese highlander esteja errada e juntemos a isso outra hipótese que muito me agrada (e que pode ser do teu gosto, o que eu muito respeito), que também é de naturezanumérica: só se vive uma vez. Ou nenhuma vez, como parece ter acontecido com o Pitágoras.(Isso é uma hipótese de trabalho, não um ataque à credos religiosos, ok?

Aliás... a própria noção de uma alma imortal é pitagórica também, de 500 anos antes de Cristo) Se eu só vivo uma vez e por um tempo relativamente limitado, então é melhor repensar alguns dos meus hábitos. E sobretudo as manias. E sobretudo agora, que metade do meu tempo já se foi. Eu passei um bom tempo da minha vida estudando algo que não me entusiasmava muito, mas me consolava sabendo que no fundo eu tinha mil talentos. Fiquei nesse jogo tolo por anos e anos até que me caiu aficha: quem disse que eu tenho talentos? E que talentos são esses? Do que eu sou realmente capaz? Qual meu estilo, meu jeito, minha singularidade, minha pegada? Vou ficar a vida inteira sem saber? Well, não fiquei.

Abri mão daquela carreira (modo elegante de dizer que abandonei a faculdade e comecei outra) e resolvi dar a cara pra bater. Resolvi tirar a limpo essa lenda íntima de que no fundo eu era único. Claro que não foi fácil. Claro que não foi gostoso. Se não fossem outros gregos e romanos pra me inspirar (Heráclito, Epicuro, Lucrécio, sofistas, etc) e mais uns bons amigos meio doidos e livros e filmes e poetas e músicos e pintores eu talvez adiasse isso por mais uns 500 anos. Ou deixasse pra outras vidas.

Mas, como já mencionei, prefiro pensar como outro grego, o Ulisses. Se você não leu Homero tudo bem, eu resumo: Ulisses está tentando voltar pra casa antes que algum aventureiro lance mão... da Penélope. O caminho de volta é cheio de percalços (uma odisséia, por assimdizer) e ele acaba caindo numa ilha paradisíaca onde morava uma deusa (nos dois sentidos). A moçoila olímpica se apaixona pelo herói e, well, seguem-se dias e dias de amor di-vi-no (literalmente). Cada vez mais apaixonada, a deusa dá uma cartada : fique comigo e te faço imortal.O que você diria? Pense bem: ilha grega + amor + sexo + juventude eterna. Parece paraíso, não?Pro Ulisses não. Pro Ulisses essa história de imortalidade é coisa para os fracos. Aventura mesmo, emoção mesmo, coragem pra valer é ser mortal. Nobre e heróico mesmo, mais do que ganhar batalhas, é voltar pra casa e assumir o seu papel no mundo. E a deusa ficou a ver navios, morrendo de saudade pro resto da vida (o que, no caso de um imortal, é bem ruim).

Pois bem: eu resolvi largar a mão de jogar tempo fora e descobrir o que eu tenho de singular, de único, aquilo que só eu sou capaz de fazer. Vinte anos depois posso dizer uma coisa boa e outra meia-boca:- já sei do que sou capaz- já sei do que não sou capaz (e a lista é vasta, o que é bom pra não passar a vida inteira tentando ser o que não sou) Por que esse papo “existencial”, agora? Pra contar das minhas escolhas de vida?Não. Minha intenção aqui é provocar você e tirar – quem sabe – alguém da zona de conforto. Conforto é coisa pra gato gordo no sofá, não pra essa nossa espécie que se reinventa a cada cinco minutos.

E o que me motivou a provocar você? Algo que vi na internet? Não, não, foi uma conversa ao vivo e a cores com um cara que eu não conhecia. O rapaz é ilustrador e diretor de arte numa agência. A história dele é bem legal. Nem me lembro de onde ele é, só sei que é longe, e desde moleque ele gostava de desenhar, gostava tanto que se inscreveu num curso por correspondência (sim, isso foi pré-web). Lá no fim do mundo não havia mercado pra artistas, então começou como assistente numa empresa. Como o menino se interessava muito pelo trabalho dos projetistas (na época era prancheta e nanquim), deixaram que ele fizesse a parte chata: escrever com o normógrafo (outra relíquia). Em suma: devagarinho e com empenho ele foi investindo naquilo que era seu talento nato. E hoje é um ilustrador e vive bem disso. Ele poderia ter se conformado. Poderia ter pensado pequeno. Poderia ter posto a segurança em primeiro lugar. Poderia ter ficado sonhando com um talento imaginário por medo de se frustrar. Tenho certeza de que muitos garotos lá na Zona Longe devem ter seguido esse outro caminho, o caminho que não sai do lugar. Tenho certeza de que esses garotos poderiam dar mil desculpas e causas pra não ter se arriscado.

Mas um amigão já me disse: se você pode escolher entre dois caminhos é porque nenhum deles te interessa. Aquilo que é vital pra você não tem escolha.

Bom amigo esse, amigo que apostou no seu talento único pra filosofia e pensamento e tem hoje a Escola Nômade(www.escolanomade.org.br). Hoje eu entendo porque Pitágoras e outros caras querem acreditar que a vida é matemática: é vontade de crer que a vida caiba em fórmulas, medo dessa liberdade além da conta.Provoquei você? Tomara que sim.

http://blogs.msdn.com/renedepaula

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mulheres possíveis

Texto na Revista do Jornal O Globo.

'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.

Martha Medeiros - Jornalista e escritora

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

T maiúsculo

Hoje acordei sentindo uma felicidade enorme, daquelas que arrepia a pele e ouriça os pelos.

Olhei para o lado e ...uma nuvem escura invadiu a minha cama. Ela se foi.

Como? Como pude deixá-la sair assim, sem um toque nos lábios? O que fiz de errado? A noite não significou nada? O que fiz a noite passada?

Arrepio de desespero.

Vasculhei a casa inteira atrás de um ínfimo bilhete, uma linha sequer e NADA. Nem uma marca de batom na camisa, nem um pedaço de papel higiênico no lixo do banheiro, nada para provar que a noite passada existiu.

É tudo o que eu ganhei por dar o melhor de mim a ela: AQUELA INGRATA.

Muita RAIVA.

O chuveiro está esquentando demais, preciso arrumar isso. Será que ela roubou alguma coisa? Acho que não, aí já seria demais.

Deixe-me pensar... entrei no carro com a minha melhor roupa, meu melhor perfume, encontrei-a na hora certa, no lugar certo, sentindo a coisa certa. Então por quê?

Tudo bem que não foi bem um encontro, foi mais um, digamos, desencontro. Se aquela vagabunda da minha mulher não tivesse me seguido outro dia, nada disso teria acontecido.

Porque será que as mulheres são tão desconfiadas? Será que não sabem que basta confiar que o prazer desaparece? E que prazer teria trair sem desconfiança? E que prazer que ela tem, senhor! É um sentimento de louco.

Ai, caramba. Agora ferrou de vez, essa droga de racionamento e eu aqui, todo ensaboado. Cadê a toalha? ACHEI! Tem um fio de cabelo aqui! É loiro ou castanho? Deixa eu ver... droga, é da minha mulher.

Cadê a minha calça? Toda vez isso, também, essa mania de arrumação... tira todas as minhas coisas do lugar. Hum... camisa verde com calça marrom...é, ficou bom. Esse sapato está meio gasto, mas tudo bem. É um estilo.

Será que.. se eu voltar naquele bar eu vou encontrá-la de novo? É isso! Vou procurá-la. Puts, loira ou morena? No escuro nem deu pra perceber. Já sei, vou chamar o Alfredo e inventamos uma estória para fazer as moças gemerem. Assim vou reconhecê-la. Aquele perfume, aqueles gritinhos... Ih, a campainha!

Boa noite, quem é? Oi meu amor, pode entrar. Como? Você quer o quê? Mas o que você viu não foi bem o que aconteceu. Você está se sentindo bem? Está se sentindo nervosa? Irritada? Prestes a explodir? O divórcio? Pra quê, meu amor? Vai dar muito trabalho, imagina o quanto a gente vai gastar com aqueles sangue-sugas que vão querer tirar as nossas calças com um só olho? Vamos lá, eu sinto muito. Me perdoa. Estou me sentindo muito arrependido. Eu preciso que me perdoe. Isso, foi só uma aventura, você estava viajando, eu estava com saudades, na verdade não vivo sem você. Vem, entra, não chore, eu te amo, você sabe disso. E tem as crianças, elas precisam do nosso apoio e vão voltar logo da colônia. É verdade! Claro que gosto de você, afinal, estamos juntos há tanto tempo! Eu juro que não foi nada. Entra, dorme um pouco que eu já volto. Como? Onde eu vou? Comprar cigarro, oras.

É isso, quem sabe assim ela larga do meu pé. Adoro desconfiança!

Não. Está se sentindo mais calma? Vai para cama que vou loguinho. Beijinho aqui, vem.

Cadê a chave do carro? Achei. Ah, que sentimento horrível, como eu sou horrível. Nunca mais vou fazer isso.

Mas olha só quem vem do outro lado da rua! Não conheço mas... vai ser um grande prazer!